“Se não há pão, que haja circo”

Frente a um panorama econômico desolador, com o preço do dólar disparado e sem reservas para conter a demanda, com índices de pobreza e indigência superando 40%, e múltiplos processos judiciários por lavagem de dinheiro na campanha eleitoral de 2017, o presidente Macri aposta na perseguição judicial da ex-presidente Cristina Kirchner e funcionários do governo anterior.

Cristina_Bonadío
Senadora Cristina Fernández de Kirchner e Juiz Claudio Bonadío

“Se não há pão, que haja circo” disse um ministro de Macri ao jornalista de La Nación Carlos Pagni. E o circo tomou forma de processo judicial, que tem mais de mediático que de jurídico, por subornos e lavagem de dinheiro de empreiteiras no governo anterior. Isso explica que, enquanto o dólar alcança os 30 pesos por unidade – desvalorização de mais de 50 % desde janeiro- os médios de comunicação só falam do depoimento de Cristina Kirchner.

O Juiz Claudio Bonadio, que tem 5 dos seis processos contra a ex-mandatária, a acusa chefiar uma quadrilha criminosa que extorquia dinheiro a empreiteiros para as campanhas eleitorais: mesma acusação feita a Luiz Inácio “Lula” da Silva pela Lava Jato.

O processo começou quando um motorista entregou fotocópias de 8 cadernos a um jornalista de La Nación – Diego Cabot – que os deu ao promotor Carlos Stornelli, chefe de segurança do club Boca Juniors que tem fortes laços com Mauricio Macri desde a época em que era presidente da entidade esportiva. Stornelli, amigo íntimo de Cabot, casualmente pertence à mesma jurisdição que Bonadío. O motorista recebeu os cadernos de um outro motorista, Oscar Centeno, que depois solicitou a devolução. Antes, ele xerocou os originais que entregou ao jornalista.

Oscar Centeno, que escreveu os cadernos, era motorista de um outro ex motorista de táxi, Roberto Baratta, que chegou a ser funcionário de confiança de Julio de Vido, ministro de Planejamento dos governos Kirchner. Neles teria registrado os percursos por diversos lugares – até restaurantes – com supostas malas com dinheiro para serem entregues a integrantes do governo de Nestor e Cristina Kirchner (2003 – 2015)

O processo movido por Bonadío fez com que passasse a um segundo plano na opinião pública o escândalo pelo esquema de lavagem de dinheiro e doações ilegais nas eleições legislativas de 2017, que fez despencar a imagem tanto de Macri – 20 pontos – e da governadora da província de Buenos Aires María Eugenia Vidal, sua mão direita. Também serviu para que os altos índices de pobreza e endividamento fossem esquecidos momentaneamente.

Contudo, não bastaram os ecos das espetaculares detenções ordenadas por Bonadío em 1 de agosto, nem os “vazamentos” à imprensa das depclarações dos empresários “arrependidos” -apesar do segredo de justiça -, nem o depoimento de Cristina Kirchner –com um “impactante” esquema de segurança que envolveu 300 agentes militarizados-, para que a escalada do dólar fosse, novamente, o tema do dia.
Parece que falta pão… e o circo é pouco.

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