A renúncia de Cristina e as lições do Brasil

“Se algo me acontecer, no olhem pro Oriente, olhem para o Norte” diz Cristina Fernández de Kirchner em 30 de outubro de 2014. Estava se referindo a ingerência dos Estados Unidos na política argentina por meio do ataque dos “fundos abutres” (fundos de investimento que compram papéis de países em default para litigar maliciosamente e faturar ganhos enormes e ilegítimos), mas também aos meios de comunicação hegemônicos, a alguns operadores judiciais, e as ONGs financiadas por thinks tanks americanos.

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A ex-presidenta, e atual senadora, pensava mais em termos geopolíticos do que domésticos para entender os problemas pelos quais estava passando o país. E não era paranoia: mal chegou Mauricio Macri ao governo, pagou a dívida aos fundos abutres em condições muito melhores do que a que eles pretendiam –devolvendo sabe-se lá que favores- e entregava aos interesses internacionais tudo o que eles queriam: o petróleo da bacia “Vaca Muerta”e de outras bacias marítimas, empresas de energia,  satélites etc. Ao mesmo tempo, começou uma feroz perseguição judicial com causas inventadas, a maioria simples medidas de política que sempre estiveram isentas da ação da justiça conforme pacífica jurisprudência da Corte Suprema de Justiça argentina. Consequência destas manobras, hoje estão presos, entre outros, o ex-vice-presidente Amado Boudou, Julio de Vido, ex-ministro de planejamento de Néstor e Cristina, o dirigente social Luis D’Elía etc. Além da ex-mandatária, que responde a 10 processos -8 deles a cargo do juiz Claudio Bonadio-, a família Kirchner está processada por associação ilícita (a filha, Florencia, integraria a tal “associação” desde que tinha 12 anos, quando faleceu seu progenitor, o ex-presidente Néstor Kirchner).

Contudo, a pesar do constante e omnipresente ataque dos meios hegemônicos de comunicação, a popularidade de Cristina Kirchner foi crescendo dia a dia. Em 2017 foi eleita senadora pela província de Buenos Aires, o principal distrito eleitoral argentino, com quase um terço dos eleitores, a pesar de perder as eleições por escassa margem, mais pela divisão do próprio peronismo do que por méritos da aliança eleitoral Cambiemos de Mauricio Macri. Nessa oportunidade, Cristina foi por fora da estrutura do Partido Justicialista para evitar uma interna desgastante. O resultado negativo, certamente, pesou bastante na sua decisão de não disputar novamente a presidência Argentina em busca de fortalecer a unidade do Partido Justicialista, já que alguns dos seus membros a acusam de ser personalista e de ter governado por fora da estrutura partidária. Alguns deles, hoje arrependidos, chegaram até a fazer campanha por Macri em 2015. O mesmo pode se dizer de muitos dirigentes sindicais com quem Cristina teve atritos em seu segundo governo.

Até aqui podemos ver as claves domésticas da renúncia a se candidatar novamente à presidência, embora lidere a pesquisas por vários pontos, mas a história recente do Brasil também deve ter pesado na decisão. Luiz Ignácio Lula Da Silva foi preso pouco tempo antes das eleições num processo kafkiano no qual nem sequer puderam identificar o “fato criminoso”, quanto menos a prova de tal fato. Cristina também poderia ir presa antes das eleições? É quase impossível, como também o era com Lula. Agora o candidato é outro Fernández, o Alberto e, embora os votos sejam de Cristina, há tempo para fazer uma campanha que o posicione em primeiro lugar, seja qual for a sorte da viúva de Kirchner. Fernando Haddad não teve esse tempo.

Por outro lado, a candidatura a vice desmantela a estratégia de Mauricio Macri, que aspira a reeleição e não tem uma só obra para chamar de sua: só o ódio a Cristina Kirchner de uma parte da sociedade argentina, semelhante aos que odeiam o PT no Brasil, que pretendia insuflar com a causas judiciais à medida em que se aproximassem as eleições de outubro. Na Casa Rosada hoje estão desesperados tentando encontrar uma nova estratégia eleitoral.

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Mas a renúncia não se limita a uma tática eleitoral, não alcança com vencer o macrismo -e o establishment econômico- nas eleições, é preciso pensar no dia depois. Dilma Rousseff venceu as eleições de 2014 e no dia seguinte a oposição gritava impeachment, o congresso paralisava todas as iniciativas de reformas do executivo e, só pra desgastar a presidenta, aprovava “pautas bombas”, instaurando um inferno institucional no Brasil que acabou na destituição, sem improbidade, de Dilma. A experiência brasileira certamente dá outra dimensão a renúncia histórica de Cristina: como candidata a vice acrescenta-se um valoroso soldado e abre-se o leque do poder na procura das maiores alianças para governar uma Argentina pós Macri, em franca débâcle  econômica, crise institucional e desintegração social.

Ramiro Blanco

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