Rumo a uma democracia comunicacional

FONTE: El Destape


por Nora Merlín (*)


Karl Marx, em Teses sobre Feuerbach (1845), mais precisamente na Tese 11, conclui que “os filósofos nada fizeram além de interpretar o mundo de várias maneiras, mas do que se trata é de transformá-lo”. O pensador alemão afirmava que a filosofia, se não se tornasse uma prática transformadora, era inútil.

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Durante os anos sombrios do governo neoliberal [2015-2019], a oposição precisou de algum tempo para entender os mecanismos usados ​​pelo poder para impor o plano neoliberal e enfeitiçar a subjetividade. Naquela época, o campo popular conseguiu desvendar as operações midiático-judiciais, o uso das fakenews e o lawfare, foi capaz de entender a instalação de afetos como ansiedade, o medo e o ódio para disciplinar, e assim decodificar uma das estratégias centrais usadas pelo poder: invisibilizar os interesses empresariais e transformá-los em “o bem comum”, “a República” e “os valores democráticos”. A subjetividade aprendeu a interpretar as mensagens comunicacionais da mídia corporativa, que buscam colonizar o senso comum, e a descobrir os interesses por trás das declarações e promessas dos líderes de Cambiemos, que zombavam e enganavam seus eleitores.

Uma vez que as táticas de guerra usadas pelo poder foram entendidas, e seus interesses ocultos pelas técnicas de marketing e de autoajuda se tornaram visíveis, qualquer pessoa tornou-se capaz de discernir os interesses e negócios privados por trás de uma narrativa republicana, que se manifestava contrária à corrupção.

O discernimento e sua subsequente aceitação coletiva do problema, tornaram possível a transição para consequências práticas e transformadoras. O entendimento, o discernimento e a organização do campo popular foram duas operações políticas centrais empregadas pela então oposição, que levaram ao triunfo da Frente de Todos nas eleições.

O discernimento dos interesses do poder, construção e organização do vínculo militante e das consignas assumidas coletivamente, foram ações determinantes na política. A organização da unidade, ou seja, das forças nacionais e populares que se opõem ao neoliberalismo, continua sendo o melhor método para combater o poder neoliberal. Entendemos que a organização não é apenas um meio para atingir fins, mas também a construção dos próprios fins.

A atual democracia, muito enfraquecida pela administração neoliberal anterior que se guiou pela concentração de poder, exige o fortalecimento das instituições e mecanismos reguladores capazes de limitar, distribuir e desconcentrar. Não apenas os líderes, mas também o povo deve gerar defesas contra o poder do mal que continua a agir silenciosamente, desestabilizar e atacar. Os dois agentes, o povo e o Estado, terão que aprofundar o discernimento e a organização de uma unidade cada vez mais ampla e a invenção renovada de algumas de suas práticas políticas.

Por exemplo, já se entendia que o monopólio da informação e da verdade prejudica a democracia, resultando no detrimento ao direito à informação e à pluralidade de vozes, fundamentais para seu funcionamento. A Lei de Mídia, promulgada em 2011 pelo governo Cristina, estabeleceu regras para a operação e distribuição de licenças de mídia. Foi modificada por um decreto de Macri, que visava cercear a natureza antitruste da lei, para o benefício de grandes grupos, principalmente o Clarín.

Em suma, atualmente não há democratização da palavra pública ou, em outras palavras, Clarín continua a ser o proprietário dos dicionários. Como faz a sociedade, sem a Lei de Mídia, para defender a democracia e construir mecanismos que limitem o monopólio da palavra e permitam o discernimento da verdade?

Se aplicarmos à situação nacional o axioma marxista, a famosa Tese 11, depois de interpretar os mecanismos usados ​​pela corporação da mídia para colonizar a subjetividade, o povo enfrenta uma encruzilhada política: sem a Lei de Mídia, eles devem encontrar nas forças sociais mecanismos capazes de funcionar como limite ou dique, em função ao direito constitucional à informação.

É hora de transformar, desde as bases, a realidade construída pela corporação midiática. Teremos que avançar para uma ação que consiste em pressão coletiva em torno da consigna do direito à informação verdadeira. Inventar um Observatório Interdisciplinar, uma ferramenta para a regulação democrática e popular sem dogmatismo ou partidarismo, será uma das prioridades da política nacional para ressuscitar a democracia.


(*) Nora Merlin é psicanalista e professora da Universidade de Buenos Aires. Colunista do jornal Página 12 y do portal El Destape. Autora dos livros “Populismo e Psicanálise”, “Colonização da Subjetividade”, dentre outros.

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