Alberto Fernández conversou com o presidente uruguaio Luis Lacalle Pou sobre o futuro do bloco: “A decisão é não deixar o Mercosul”

Eles discutiram a necessidade de coordenar ações para a pandemia. O presidente argentino levantou sua ideia de fortalecer o Mercosul com novos membros.

FONTE: Página 12

Por Fernando Cibeira

Alberto Fernández dialogou com seu colega uruguayo Luis Lacalle Pou.

“A decisão não é deixar o Mercosul, mas torná-lo maior, com mais membros”, disse o presidente Alberto Fernández ao seu colega uruguaio Luis Lacalle Pou durante a conversa que tiveram ontem, depois que os negociadores argentinos deixaram a rodada de negociações que o bloco estava realizando para fechar um acordo de livre comércio com a Coréia do Sul. O governo argentino considera que tal tratado, nesses momentos de crise, pode ser letal para a indústria argentina, mas isso não significa que esteja avaliando a quebra do bloco regional, pelo contrário, gostaria de fortalecê-lo incorporando novos atores. Nesse sentido, ele se comprometeu com Lacalle Pou a aprofundar o trabalho de correção das “assimetrias” no Mercosul, uma reivindicação histórica do Uruguai e do Paraguai, as duas menores economias.

Fernández recebeu um WhatsApp de Lacalle Pou cedo para fazer uma teleconferência. Assim como acontece com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, com quem falou na segunda-feira, o presidente argentino tem um vínculo pessoal muito bom com o uruguaio, que supera suas diferenças políticas. O diálogo começou devido à pandemia e às medidas tomadas pelos dois países. Eles concordaram com a necessidade de coordenar o trabalho em questões de saúde. De lá, eles rapidamente falaram da situação do Mercosul, onde concordaram com a urgência de fortalecer o bloco no meio da crise. Claro que eles fizeram isso de diferentes pontos de vista.

Lacalle Pou destacou sua posição de “flexibilizar” o bloco como uma maneira de corrigir as “assimetrias” internas, com dois países maiores, como Brasil e Argentina. A ideia de flexibilizar, permitindo que alguns membros assinem acordos de livre comércio por conta própria, não é nova. Era a posição do Uruguai na época que Danilo Astori era ministro da Economia nos governos da Frente Ampla, mas ele nunca encontrou eco. No geral, ele conseguiu que no Mercosul fosse criado um fundo – Focem – destinado principalmente a obras de infraestrutura no Uruguai e Paraguai. Mas agora Lacalle Pou voltou a pressionar por esses acordos. Alberto Fernández prometeu ontem que trabalharia para superar essas assimetrias, mas também afirmou que os dois países devem ajudar a buscar “uma lógica regional” que fortaleça o Mercosul.

No Ministério das Relações Exteriores da Argentina, sustentam que a mudança de governo em Montevidéu foi decisiva para a aceleração das negociações de acordos de livre comércio que, além da Coréia do Sul, também incluem o Canadá, a Índia e o Líbano. Foi Lacalle Pou, alinhado ao governo de Jair Bolsonaro e à ala neoliberal que norteia a economia brasileira, que mais promoveu as negociações com a convicção de que favorecerá sua balança comercial. O Uruguai procura colocar sua produção de carne e leite no exterior enquanto não possui uma produção industrial importante para defender.

Não é o caso argentino cuja preocupação central é proteger o emprego industrial. Na chancelaria entendem que um acordo com a Coréia do Sul e seu modelo econômico desenvolvido pode ser letal para os produtos argentinos, especialmente na situação frágil em que se dará a concorrência, depois de meses de paralisação pela pandemia. Por esse motivo, a decisão da equipe de negociação liderada pelo secretário de Relações Econômicas, Jorg Neme, foi anunciar sua retirada das negociações, como forma de não dificultar o andamento de um acordo com o qual ele não concordava.

No entanto, a declaração do Ministério das Relações Exteriores do Paraguai, que detém a presidência pro tempore, ameaçando estudar a aplicação de sanções à Argentina, obscureceu a situação. “Se todos podem negociar o que querem, para que o Mercosul existe?”, perguntou Alberto Fernández em entrevista na segunda-feira. “Se eles querem jogar o Mercosul ao mar, que digam”, acrescentou, referindo-se aos outros governos.

Ontem, mais calmo depois da ligação, Fernández conversou com o ministro das Relações Exteriores Felipe Solá e pediu que ele falasse com Ernesto Salvi, seu colega uruguaio. O contato ocorreu ontem e, embora as diferenças tenham sido expressas, também teve a intenção de ambos os ministros de recompor a situação. Solá comparecerá no Comitê de Relações Exteriores do Senado argentino para explicar a decisão do país. Uma das coisas que mais irritou Fernández foi que a oposição macrista – que ele considera ter agido contra os interesses do bloco por quatro anos – o acusou de tentar quebrar o Mercosul.

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