Argentina x Brasil: mais do que antagonismos presidenciais

Quando as diferenças do combate ao coronavírus vão muito além das figuras dos presidentes de cada país.

Mortes por COVID-12 por milhão de habitantes: Brasil 73, Argentina 7.

Quais são as principais diferenças entre as maneiras de lidar com a COVID-19 na Argentina e no Brasil?

O primeiro que vocês devem pensar são nas mortes em cada um dos países: mais de 16.000 no Brasil e menos de 400 na Argentina. Aí vêm os que dizem: “Ah, mais o Brasil tem uma população bem maior do que a Argentina”. E, a resposta: Brasil tem 73 mortes por milhão de habitantes e Argentina 7. Acabou a discussão.

Acabou? Acho que não.

A segunda coisa é que o Bolsonaro não só é contra o isolamento social como também milita pelo fim das medidas de restrição de circulação de pessoas impostas pelos governadores e prefeitos em seus estados e municípios. Pelo contrário, Alberto Fernández é um dos presidentes que mais se destacou pela implantação de uma quarentena ferrenha, em articulação com os governantes de TODAS as províncias e municípios, sem distinção de partidos políticos. Sem dúvidas, isso fez uma grande diferença, mas não para por aí.

Acontece que, no profundo da sociedade, nessa parte que quase não se percebe, mas que move as engrenagens sociais, há diferenças muito mais marcantes. Como ponto de partida, diremos que ambos os países passaram por momentos de desmonte de todo o aparelho científico que fizesse sombra às multinacionais, as quais passaram a ter maior preponderância nos governos Temer e Macri. A área da pesquisa foi, talvez, a mais atingida pelas políticas neoliberais implementadas por esses governos.

Nesse cenário, aos trancos e barrancos, os cientistas argentinos conseguiram resistir às políticas de ajuste macristas e agora, convocados pela pandemia, mudaram o foco de pesquisas anteriores relacionadas com outras doenças e conseguiram desenvolver um teste rápido e econômico para detectar a presença do coronavirus, imprescindível para a política do governo argentino de combate a COVID-19.

No Brasil, também houve resistência dos científicos às políticas dos governos pós-impeachment. A diferença é que agora padecem as investidas do governo Bolsonaro que sucateia as universidades, os centros de pesquisas e restringe bolsas de pesquisadores. Como se não fosse suficiente, as mesmas polícias militares que impediram o livre exercício de expressão política, barrando atos nas universidades e manifestações contra Bolsonaro na campanha de 2018 (censura arbitrária que acaba de ser rejeitada pelo Superior Tribunal Federal), na última semana impediram cientistas de realizarem testes para desenvolvimento de uma pesquisa, coordenada pela Universidade Federal de Pelotas, para saber o real número de atingidos pelo SARS-CoV-2. Essas mesmas polícias, intimidaram os cientistas, levando-os para as delegacias “para averiguação”, e chegaram ao absurdo de destruir o material coletado por eles, agindo em apoio da tese da “gripezinha” ou “resfriadinho” do capitão-presidente.

Outro exemplo, de desserviço à saúde pública, vem de outro órgão que não o poder executivo, como o próprio Conselho Federal de Medicina (de quem esperamos posicionamento técnico-científico e não político), em relação à “obsessão do capitão”, afirma que o uso da cloroquina fica condicionado “a critério médico e consentimento do paciente”, apesar de reconhecer que “não existe, até o momento, nenhum trabalho científico, com ensaio clínico adequado, feito por pesquisadores reconhecidos e publicado em revistas científicas de alto nível, que comprove qualquer benefício do uso das drogas para o tratamento da COVID-19“. Conforme suas próprias palavras, deveria se posicionar contra o uso do medicamento, mas, segundo parece, não são tempos de defender a ciência para salvar vidas e, sim, evitar irritar o humor presidencial. Melhor continuar com a cruzada contra os médicos cubanos…

Para concluir, há quem pense que a coisa vai melhorar tão só mudando o chefe do executivo, mas estão enganados: ele não chegou lá sozinho. Será preciso democratizar as instituições num pacto civilizatório amplo que envolva todas as instâncias sociais.     

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