CFK: “Eu não vou pedir absolvição, façam o que tiverem que fazer”

Durante o depoimento, que durou uma hora, Cristina Kirchner mirou contra o poder judiciário e denunciou o vínculo dele com o governo anterior. “Vocês são os responsáveis. Hoje Prat Gay [ex-ministro de economia 2015-2016] dá aula em Columbia e aquele que nos endividou (Macri) assiste a jogos de futebol no Qatar. E Axel Kicillof e eu estamos aqui”, disse.

Por: Néstor Esposito – @nestoresposito
Tradução: Carlos E. Martínez

FONTE: Tiempo argentino

A vice-presidenta, Cristina Fernández de Kirchner – CFK- interpelou ontem, talvez como nunca antes, aos juízes que devem decidir se continua ou não a causa conhecida como “Dólar Futuro”, e desafiou: “eu não vou pedir absolvição das acusações contra mim, vou pedir que a Constituição seja aplicada. Está tudo escrito, só tem que aplicar a lei”.

Ao longo de quase uma hora de exposição, CFK se dirigiu diretamente a dois dos três juízes da Câmara de Cassação, Diego Barroetaveña e Daniel Petrone, que devem resolver se, a partir de uma perícia de peritos da Suprema Corte, declaram a extinção da causa porque não existiu prejuízo algum para o Estado Nacional com as operações de dólar futuro de finais de 2015.

A vice-presidenta denunciou que “o lawfare continua no seu apogeu” e definiu a causa Dólar Futuro como “um caso modelo da intromissão do Poder Judiciário nos processos eleitorais e na política na República Argentina”.

Nesse contexto, repetiu o histórico do processo e desafiou os juízes a “darem a cara” quando adotam decisões que envolvem questões políticas que afetam a vida dos cidadãos. “Não é possível uma vida democrática saudável com funcionários que parecem parte de uma aristocracia. Nós [os políticos] vamos a eleições a cada dois anos, todos os cargos que tive na vida –disse CFK sinalizando para o Juiz Petrone- foram votados em eleições, eu não tive o acordo do Senado, nem me propôs o Conselho da Magistratura. Somos profundamente democráticos. Que tem corruptos na política? Claro que sim, mas no Poder Judiciário não tem corruptos? Todos podem demonstrar do que vivem?”.

“As decisões que toma o Poder Judiciário afetam a vida e o patrimônio das pessoas”, enfatizou a ex-presidente, corresponsabilizando juízes e fiscais pela situação econômica deixada pela presidência de Macri. Na leitura de CFK, o Poder Judiciário tem contribuído para a vitória de Cambiemos. E depois,  esse mesmo poder, fez parte duma perseguição político-judicial enquanto, por baixo da superfície, a situação social e econômica descia a níveis infernais.

Enquanto à causa, especificamente, lembrou porque se fez a audiência ante a Cassação cinco anos depois do inicio do processo, origem que também questionou (e adjudicou ao falecido juiz Claudio Bonadio uma intencionalidade política sobre os resultados do segundo turno eleitoral em 2015), uma perícia da Corte demonstrou que não há prejuízo patrimonial contra o Estado.

Kirchner ainda lembrou: “O 17 de novembro de 2015, ao meio dia, em plena atividade cambiaria, [o juiz] Bonadio irrompe com uma ordem de busca e apreensão no Banco Central. Qual era o objetivo? Provocar uma corrida, uma desvalorização monetária, um desastre para todos”. Nessa leitura, Bonadio provocou uma comoção no dólar faltando 5 dias para o segundo turno das eleições presidenciais para melhorar as possibilidades de triunfo de Mauricio Macri contra Daniel Scioli. “Não tinha nenhum amigo meu [ou] do meu governo entre os que compraram dólar futuro”, apontou CFK. Mas, por outro lado, Cristina destacou que o ex-funcionário macrista Mario Quintana obteve e executou contratos de dólar futuro depois da assunção do governo de Cambiemos.

“A realidade é que funcionário algum ou amigo do meu governo tinha contratos de dólar futuro; os que tinham eram os amigos de Macri e seus funcionários, e quando chegaram ao governo acertaram a taxa de juros que iam pagar a si mesmos quando desvalorizaram a moeda, sabendo que iriam desvalorizar. (…) Chegaram ao governo, desvalorizaram, usufruíram da desvalorização nos contratos de dólar futuro, e nós que somos acusados, que zeramos a dívida do país e pagamos a dívida ao FMI”, disse CFK.

Está comprovado que não houve prejuízo. Houve ganhos nos balanço do BCRA” desde dezembro de 2015, disse CFK, que denunciou uma deterioração permanente em todas as variáveis sociais e econômicas. O dólar estava em 9,75 pesos e esse era o valor em que se negociavam bens e serviços. “Quando o gênio das finanças (Alfonso Prat Gay) falou que o preço do dólar era o do blue (*) (15,75) tudo foi para o espaço, e vocês, poder judiciário, contribuíram para que esse governo ganhasse as eleições e fizessem o que fizeram. Vocês também são responsáveis. (…) Não olhem para outro lado porque vocês são responsáveis. Hoje Prat Gay dá aulas em Columbia, e quem nos endividou (Macri) vai assistir a jogos de futebol no Qatar. E Axel Kiciloff e eu estamos aqui”.

Por Zoom (e não presencialmente, cara a cara como ela tinha solicitado mas os juízes não aceitaram) a vice-presidenta confrontou: “Eu estou sentada aqui por uma causa manipulada ao calor do processo eleitoral, e agora com uma perícia feita por peritos de sua Corte, Petrone, sua Corte, eu sentada aqui. E quer me convencer que tem um Poder Judiciário na Argentina? Não me venha com essa!

Finalmente, CFK dedicou um parágrafo ao fiscal federal Carlos Stornelli e suas recentes declarações públicas. “Ontem este homem ameaçou literalmente ao Presidente da República, ‘vamos nos ver quando deixe de ser presidente, vamos nos ver de homem para homem’… Quando Alberto deixe de ser presidente vão vê-lo num inquérito judicial, porque isso é o que vocês fazem. E continuam tentando convencer aos argentinos que vocês são independentes e fazem justiça”.

NdT: (*) Dólar blue era o eufemismo adotado pelos médios hegemônicos para referir-se ao dólar ilegal, clandestino.

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